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A biografia de Fernando Pessoa feita por um seu contemporâneo chamado João Gaspar Simões, intitulada Vida e Obra de Fernando Pessoa e datada de 1950 inicia-se com o capitulo: Paraiso Perdido. É importante saber que Fernando Pessoa vive os primeiros anos da sua vida num idilio familiar, no seio de pessoas que o amam e que o adoram ainda sem compromissos e sem o fazerem duvidar do amor. É um idilio também espacial, a familia vive numa casa espaçosa no Chiado, nas traseiras do Teatro de S. Carlos e na vizinhança da Igreja dos Mártires. Esse sino da minha aldeia mais tarde ressoa ainda na poesia de Fernando, como um eco de um passado distante de felicidade, que para sempre está umbilicalmente ligado a um período concreto da sua infância. O que lhe inspira esse ambiente aldeão não é propriamente a falta da cidade ali, ou a presença ali da aldeia, mas antes da minha aldeia, a sua aldeia é a sua posse da memória-felicidade, momento no tempo congelado, arquétipo de alegria infantil e pura. Os primeiros cinco anos da sua vida são passados nesse idilio afastado do mundo, a só com o seu pai ainda vivo, com a inteira atenção da sua mãe, o deambular de duas criadas velhas e da sua avó já demonstrando sintomas de uma senilidade perturbante. Mas para compreendemos melhor o poema em questão, devemos analisar a influência dessa figura que ocupa o altar de platina do seu mundo, para sempre, a sua mãe Maria Madalena. Cedo o seu pai se afasta, por virtude da sua saúde frágil, morrendo também jovem. Pessoa não parece guardar dele memória visual, tão essencial ao ser humano, porque ligada à memória sentimental, deixando assim no poeta uma impressão vaga e breve como uma brisa, mesmo assim aparentemente benéfica, de cultura e civilização. Sua mãe, no entanto, tinha ela mesma uma cultura invulgar para uma mulher da época, sabia inglês e francês e influenciaria o seu filho decisivamente no apreciar das coisas belas. Até aos seus cinco anos, o seu paraiso é este: a atenção completa e devotada da sua mãe e a presença de um pai culto e gentil, que perde quase inconscientemente, sem que ele deixe em si a marca forte de uma personalidade masculina. Nunca mais Pessoa se esquece desta vida tranquila e que sempre recordará em pena e sofrimento, por saber perdida para sempre. Em 1893, o pai adoece gravemente e o irmão mais novo de Pessoa também. O seu aniversário não se celebra como até então. Algo muda decisivamente. Um mês depois do 5.º aniversário de Pessoa, o seu pai morre, a familia muda-se para uma casa mais pequena, longe do Tejo, longe do Teatro de S. Carlos e longe da Igreja dos Mártires. Fernando Pessoa confiou a um amigo que foi inspirado para escrever O menino de sua Mãe por uma litografia que viu na parede de uma pensão, onde jantou com um camarada. Mas o menino de sua mãe não é o soldado morto na gurra e representado nessa ilustração anónima, mas antes Fernando Pessoa ele mesmo (cf. João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, págns. 29 e ss). Com a morte do seu irmão mais novo, a sua mãe inconsolável volta-se novamente para o seu menino. Pessoa sente regressar por instantes um idilio possivel, de carinho devotado, mas seria uma ilusão breve. Ás vezes tido como o poeta racional, pensador frio da realidade humana, Fernando leva sempre junto de si esse carinho materno que o alimentou nas horas decisivas da formação do seu ser e que até à morte o animavam na ternura de todas as coisas. É o dia 13 de Junho de 1894 o último dia de Fernando Pessoa enquanto menino de sua mãe, é o seu último aniversário comemorado na esclusiva atenção da sua progenitora. Sem amigos, preso à sua mãe e ao pequeno mundo, o pequeno homem começa então a imaginar outros mundos e outras realidades. Trata-se de uma reacção, talvez insconsciente de fuga, à invasão do seu mundo por quem será brevemente o seu padrasto. A sua mãe iria abandoná-lo, não em presença, mas talvez mais dolorosamente em afastamento e dedicação. Perdida a ternura, perdida a inocência do Éden, o menino de sua mãe torna-se mais frio, sombrio, dedicado ao palco interior dele mesmo, drama pessoal introspectivo, arco iris para dentro, explosão de sentimentos para sempre contidos que se revela em poesia. Há uma mágoa que o inunda e que nunca o vai deixar: no plano abandonado, que a brisa morna aquece, note-se o abandonado, ele vai sempre sentir o abandono daquela em que sempre confiou o seu intimo e que depois torna dificil acreditar novamente no amor sincero. Em 1896, vai para a África do Sul e consuma-se o abandono, a deslocação terminal da sua identidade de fora (mãe) para dentro (o seu intimo drama pessoal). Talvez seja tão dolorosa a partida, a desilusão, a perda de tudo o que antes era seguro, que Fernando sente a necessidade de deslocar para outras personalidades, que ainda são ele mesmo, essa dor que lhe parece cruel demais para suportar sozinho. Talvez por isso seja depois Àlvaro de Campos, na Ode Maritima, a recordar de modo vivido a partida no vapor para longe. A partida, o corte com o passado edilico, o medo da nova vida, tudo isso marca decisivamente um jovem que procura saber quem é. O homem abstractamente intelectual em que se torna esconde um ser que nunca recuperou da traição da sua mãe. Cedo tinha-se dado completamente, coração e sensibilidade e tinha sido traido cruelmente por aquela que mais ele amava. Negar a sua condição de vivo segue necessariamente a vida dolorosa de não confrontar essa traição, de não pôr sequer a hipótese de confiar novamente (v. no fórum do Major Reformado os textos sobre o amor em Pessoa). É
emocionante ler uma passagem do poema que diz:
Filho único, a mãe lhe dera / Um nome e o
mantivera: / «O menino de sua mãe». Enquanto
filho único, Fernando foi feliz, até aos seus 5 anos,
ou mesmo 6. Mas a mãe não lhe manteve o nome, caindo
numa vil traição, vil porque nascida da pessoa mais
improvável, de quem devia cuidar e não abandonar.
Pessoa não mais esquecerá esta dor, que percorre toda a
sua vida, como um arrepio horrivel de medo na espinha,
cada vez que se vê só, sem esperança, perdido e nada
pode fazer senão mergulhar mais fundo na sua tragédia,
mais alto no seu génio em desespero, até um fim
indefinido, até uma morte que no vazio traz a paz que
ele próprio foi incapaz de desenhar com as suas mãos de
menino tentando alcançar a sombra da sua mãe já
partida dali, mera lembrança, fantasma de um paraiso
amaldiçoado, sabor antigo de tranquilidade que permanece
etéreo mas para sempre inalcansável.
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